terça-feira, 13 de junho de 2017

Arraiá do Serra 2017. Comunidade Escolar Celebra a Tradicional Festa Multicultural do Nordeste do Brasil. Origem da Festa Junina


A Comunidade Escolar do Colégio Estadual Raphael Serravalle, em Salvador, Bahia, comemorou em alto estilo a  festa mais popular  do Nordeste brasileiro: o São João. 

Comida típica farta, muito forró, brincadeiras, trajes típicos, representações teatrais, quermesse, a famosa dança de quadrilha e,  muita animação,  estavam presentes no evento, que reuniu a Direção, Professores, alunos, funcionários e convidados.  Parabéns a todos os envolvidos! Foi tudo muito lindo! 

Embora sejam comemoradas nos quatro cantos do Brasil, na região Nordeste a festa junina se destaca por suas características multiculturais, que remontam aos colonizadores europeus, aos povos nativos e aos afrodescendentes. 

Hoje, tradições europeias,  indígenas e africanas  se misturam nessas divertidas comemorações.

No Nordeste, além de alegrar o povo da região, atraem muitos turistas, aumentando os lucros e gerando empregos. Aqui, as fogueiras servem como centro para a famosa dança de quadrilhas, enquanto na  Região Sudeste é tradicional a realização de quermesses.

Nas  Fotos 1 (acima)  e 2 (abaixo), muita animação no Arraiá do Serra, forró e  comidas típicas. AProfessoras servindo  aos aluno. 


Origem da Festa Junina 

Na época da colonização do Brasil, após o ano de 1500, os portugueses introduziram em nosso país muitos elementos da cultura europeia, a exemplo das festas juninas, que têm  origem nas festas dos santos populares em Portugal:  Santo Antônio (13 de Junho), São João (24 de Junho), São Pedro e   São Paulo (29 de Junho).  De início, a festa era chamada de Joanina e homenageava apenas São João. 

No Brasil Colônia, havia grande presença de elementos culturais portugueses, chineses, espanhóis e franceses, que podem ser identificados na festa. 

Da península Ibérica (Portugal e Espanha) veio a dança de fitas, muito comum em Portugal e na Espanha.

   
A tradição de soltar fogos de artifício veio da China, de onde surgiu a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos.  

Quadrilha: dança à francesa – da França veio a dança marcada, típica das danças nobres. A quadrilha tem origem francesa, nas contradanças de salão do século 17. Em pares, os dançarinos faziam uma sequência coreografada de movimentos alegres. 

O estilo chegou ao Brasil no século 19, trazido pelos nobres portugueses. Foi sendo adaptado até fazer sucesso nas festas juninas, como se pode observar nas palavras de origem francesa, que são proferidas para  marcar a dança.  Exemplo: anarriê  (en arrière - para trás) e anavã (en avant -para frente), alavantú ( en avant tous' - todos à frente)...

Tradições e Comidas típicas 

A comida típica das festas juninas é quase toda à base de grãos e raízes que os índios cultivavam: milho, amendoim, batata-doce e mandioca. O mês de junho é a época da colheita do milho, alimento de origem indígena. Grande parte dos doces, bolos e salgados, relacionados às festividades juninas, são feitos desse cereal. Exemplos: pamonha, canjica, milho cozido e assado, cuscuz,  pipoca, bolo de milho. 

Além das receitas com milho, também fazem parte do cardápio: arroz doce, bolo de amendoim, bolo de pinhão, bom-bocado, broa de fubá, cocada, pé-de-moleque, quentão, vinho, tudo  de acordo com o que produz cada região do Brasil. 

Várias brincadeiras entraram para a festa: pau de sebo, cabra-cega, correio elegante, os fogos de artifícios, o casamento na roça etc,  com o objetivo de animar ainda mais.

As decorações dos arraiais vieram de Portugal, junto com as novidades que, na época dos descobrimentos, os portugueses trouxeram da Ásia: os enfeites de papel, balões de ar quente e pólvora.

Embora os balões tenham sido proibidos no Brasil, por razões de segurança,  ainda são usados na cidade do Porto, em Portugal.  

Os negros e os índios que viviam no Brasil não tiveram dificuldade em se adaptar às festas juninas, pois são muito parecidas com as de suas culturas. 


Esses elementos culturais foram se misturando aos aspectos culturais dos brasileiros de origens indígena, afro - brasileira  imigrantes europeusnas diversas  regiões do país, tomando-se características particulares em cada uma.  

A música e os instrumentos usados (cavaquinho, sanfona, triângulo ou ferrinhos, reco-reco etc.) estão na base da música popular e folclórica portuguesa e foram trazidos ao Brasil pelos povoadores e   imigrantes daquele país.


Os sons regionais, que hoje conhecemos, têm esses instrumentos presentes. No Nordeste, as composições do sanfoneiro Luiz Gonzaga, nascido no dia 13 de dezembro de 1912, na pequena cidade de Exu, no interior de Pernambuco, são as mais famosas. 


Os ritmos que Consagraram o Rei do Baião, que morreu no dia 2 de Agosto de 1989, em Recife, Pernambuco, continuam a ser referências da música sertaneja de raiz. Seus ritmos foram incorporados ao Movimento Tropicalista da década de 1960, interpretados pelos representantes da Tropicália: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. A cultura brasileira sobreviverá se nós aprendermos a não esquecer nossos ícones e não os celebrar apenas em datas especiais.
Os alunos se divertiram com  brincadeiras, como  "Cabra-cega". 
A Professora Taísa Maciel com os alunos
Continue vendo  as fotos. Afinal, segundo o filósofo chinês Confúcio, uma imagem vale mais que mil palavras.  

A Banda EVENTOR comandada pelo ex-aluno do Serravalle, Bruno, 
animaram em grande estilo o Arraiá do Serra 2017. Muito bons ! 

Assista ao vídeo postado pela Profa. Renata Souza, no seu face,  
com os alunos dançando a quadrilha. Clique no link abaixo: 


Os Alunos do Ensino Fundamental (Matutino) estavam muito 
 animados  e se divertiram  bastante. Fotos da Profa. Moema


Profa. Moema Sampaio  confraternizando-se com os alunos do 
Ensino Fundamental (turno matutino)


 Representação Teatral dos Alunos do 2o. Ano H, Vespertino






Alunas Fantasiadas de "Casamento na Roça" 

 Profa. Silvia (Matemática, em pé)  e a Profa. Taísa Maciel  (Química ) 
de vestido junino,  confraternizam com os alunos do 2o. Ano Vesp. 
 Representação Teatral dos Alunos do 2o. Ano H, Vespertino

 Professor Dackson (História) confraternizando-se com os alunos 


Profa. Renata Souza (Química) e a Profa. Jane Menezes (Ed. Física) 

Prof. Moema Sampaio  (Língua Portuguesa, à esquerda)  
e a Vice-diretora do Matutino,  Profa. Nívea Muricy, à direita 
Da esquerda para a direita, as  Profas. Moema, Ângela (Português), 
Denise  (Sala Multifuncional) e  Graça Luz (Coordenadora)
Da esquerda para a direita, as  Profas. Taísa Maciel (Química), 
Jane  Menezes e  a Coordena Pedagógica Silvana Guimarães


 Profa. Edinê Menezes (Sociologia) à direita, a Profa. Thaise Farias (Química),  Nívea Muricy (Vice-diretora do Vesp), a funcionária Graça Silva, todas muito  lindas e animadas na festa. 
 Profa.  Rosana Zaidan (1a. à direita, de óculos,calça comprida, sentada), 
marcando presença na  festa.


Prof. Rita Bezerra  (Inglês- de blusa xadrez, echarp,  um lindo sorriso), 
com o casal de netinhos vestidos de caipiras, curtindo a festa  no ritmo do forró.
Alunos do 1o. Ano Vespertino, curtindo a festa  
Alunos marcando a dança da quadrilha junina ! 

Êta arquibancada animada !  





PARABÉNS, TURMA ! FELIZ SÃO JOÃO !

Fotos: Todas as imagens foram produzidas pelas Professoras Moema Sampaio, Taísa  Maciel, Claudia Martins e Renata Souza. 

Referências

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O Negro e os Ciclos Econômicos do Brasil Retratados nas Telas de Cândido Portinari. Beleza Negra, Trabalho, Diversão e Cotidiano. Leitura e Interpretação de Imagens. Biografia do Pintor.

 Cândido Portinari. Flautista, 
1934. Óleo sobre  madeira, 
46 x 37,5 cm. 


Neste post trago algumas telas do artista plástico brasileiro Cândido Portinari sobre  a presença marcante do negro em todas as fases e setores da economia brasileira, além de aspectos étnicos-culturais do Brasil, sob uma perspectiva diferente da que é apresentada pela historiografia, que não  ressalta o papel preponderante do povo negro no sucesso deste país.

Selecionei  algumas telas que focam  a beleza negra, a miscigenação de raças e culturas, as festas, diversões,  o cotidiano,  a alegria dos ex-escravos, suas dificuldades e tristezas, mas sobretudo, a importância do trabalho negro para a riqueza e o progresso deste país.
  
As imagens  me fizeram refletir sobre a necessidade de sairmos do foco  "negro coitadinho" liberto pela princesa boazinha e focarmos  no quanto esse povo contribuiu para a construção deste país. 

Portinari retratou  cenas das atividades econômicas brasileiras  desde as colheitas dos troncos de madeira de Pau - brasil pelos índios e depois pelos escravos, passando pelo  café,  até a industrialização do país, emprestando seu talento nas artes plásticas para registrar a nossa História sob a perspectiva da atitude estética marcada pelo  Movimento Modernista.
Impressionou-me  não apenas a riqueza e a  didática da apresentação de Portinari em  temas que registram a força laborativa do negro em todos os  Ciclos Econômicos do país - do Ciclo do Pau Brasil  à  Industrialização, um rico material iconográfico para um trabalho interdisciplinar envolvendo: História, Geografia, Artes e  Linguagens.
Menina Sentada,  Cândido Portinari,

Também o valor histórico dessas telas, que  a  exemplo do que fiz em posts anteriores com as telas do alemão Rugendas e do francês Debret, também sobre os negros no Brasil, tenho a intenção de mostrar essa outra face do papel do negro na economia e na formação do  Brasil. 

Consolidei minha visão de que ensinar, estudar e aprender História por meio de imagens, permite ao aluno adquirir habilidades de reconhecer e interpretar textos verbais e não-verbais, que pode ser reforçado num trabalho Interdisciplinar.

As telas  aqui apresentadas refletem  a dificuldade que o negro encontrou para libertar-se, não somente  da escravidão, mas também da situação de pobreza que  ainda persiste para a maioria e,   que não sofreu alterações substantivas,  após o histórico 13 de Maio de 1888, data da  Abolição da Escravatura. 

Cândido Portinari
A obra do pintor brasileiro Cândido Portinari (1903-1962)  caracteriza-se pela utilização  de alguns elementos artísticos da arte moderna europeia, reflete  influências do surrealismo, do  cubismo e da arte dos muralistas mexicanos,  influenciados pelas ideias do Pós Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e pelo  comunismo vitorioso na Rússia, demonstrando grande sensibilidade com o social. 

Portinari  segue essa cartilha denunciando em  suas telas  as questões sociais do Brasil, a exemplo das relações de trabalho, caracterizadas pela diferenciação étnica, a precarização do  trabalho e a exploração  do  trabalhador afrodescendente, aprofundando a pobreza desse povo.  Retrata a diversidade do povo brasileiro: plantadores de café, os negros, os caipiras, os retirantes...Sua obra é um retrato da história de da cultura do Brasil.

Portinari  era filho de um imigrante italiano  de origem judaica e pobre. Nasceu em 1903 no interior paulista, em Brodowski, na fazenda de café Santa Rosa. Seu primeiro desenho foi aos 10 anos de idade. Com apenas 15 anos, sem dinheiro e sozinho, ele vai para o Rio de Janeiro estudar artes plásticas. Em 1928,  com 24 anos ele ganhou o premio  Viagem a Europa, com sua obra “Retrato de Olegário Mariano”. Faleceu em fevereiro de 1962,  em decorrência de intoxicação de chumbo e outras substancias químicas presentes nas tintas.
                                                                
Os Ciclos Econômicos do Brasil fazem referência às atividades econômicas desenvolvidas no país em diversos períodos cíclicos. Os Principais foram:

1 - Ciclo do Pau-Brasil Cultivado durante o período pré-colonial (1500-1530). 
Pau-brasil, Cândido Portinari. Acervo digital ©Projeto Portinari     Imagem
2 - Ciclo da Cana-de-Açúcar - foi o segundo ciclo econômico desenvolvido durante o Brasil colonial. Era um produto valorizado no mercado europeu e os portugueses já plantavam a cana na costa africana e, portanto, possuíam experiência e  técnicas de plantio.
3 - Ciclo do Ouro ou da Mineração - começa no final do século XVII no estado de Minas Gerais, indo depois para   Goiás e Mato Grosso.
4 - Ciclo do Algodão - com o esgotamento das minas de ouro no país, o algodão (chamado de "ouro branco") passa a ser um dos principais produtos de exportação a partir do século XVIII e início do século XIX.
5 - Ciclo do Café -    o café também chamado de “ouro negro"  foi um dos principais produtos de exportação,  desde a chegada ao Brasil  das primeiras mudas em meados do século XVIII, atingindo seu auge no século XIX,  no oeste paulista e  região do Vale do Paraíba,  devido ao solo favorável (a terra roxa). 
6 - Ciclo da Borracha -  foi desenvolvido na região norte do Brasil, principalmente nas cidades de Manaus, capital do estado do Amazonas, Porto Velho, capital de Rondônia e Belém , capital do Pará, quando o látex era  o principal produto de exportação, utilizado para a produção da borracha.
7- A Industrialização no Brasil -  historicamente tardia, pois o país  viveu estagnado  sob o regime de economia colonial  por um longo período, ao contrário da Europa e EUA.

Vamos refletir sobre as imagens aqui exibidas. Faça sua leitura e interpretação ! 


"Mestiço", Cândido Portinari, 1934
 Trata-se do mesmo modelo da tela abaixo, "O Lavrador de Café", ambas pintadas no mesmo ano. Expressa o interesse de Portinari pela temática  nacional. 

  
"Lavrador de Café", Cândido Portinari, 1934. O lavrador mestiço/mulato.
Uma das mais importantes obras do pintor, aqui o modelo é retratado de corpo inteiro, enxada na mão, enquanto na foto anterior, a ênfase é sobre sua cabeça e os  braços cruzados.  A figura   deformada com pés e mãos  descomunais  aproxima  Portinari  do
Expressionismo. Mostra  a  importância do trabalhador rural e da lavoura do café, tendo pintado  cerca de 50 obras com esse tema.


Colheita de Café, Cândido Portinari, 1935.   
 Óleo sobre tela de tecido, 1,30 m de altura por 1,95 de largura



Cana de Açúcar, Cândido Portinari, 1938



Garimpo, Cândido Portinari, 1938 (Ciclo do Ouro) 



Colheita do algodão,  Cândido Portinari, 1957. Painel  Ciclos Econômicos. 


Colheita de Cacau, Cândido Portinari, 1954.  Acervo digital ©Projeto Portinari



Fundição de Ferro, Cândido Portinari, 1938.  (Ciclo da Industrialização) 



Seringueira, Cândido Portinari, 1954  (Ciclo da Borracha). 



Retirantes (Figuras da Praia), Cândido Portinari, 1936

Com o fim do trabalho forçado nas fazendas, os ex-escravos migram para as grandes cidades do litoral brasileiro, abrigando-se nos morros e favelas. 
Chama atenção  mulheres com seus filhos. 



Grupo de Mulheres e Criança, Cândido Portinari, 1936


Favelas, Cândido Portinari, 1957




Carnaval, Cândido  Portinari  - 1960. Acervo digital ©Projeto Portinari

Nas   telas  que registram músicas, festas e danças, identificamos a  importância da cultura negra na música popular brasileira: chorinho, samba e outro  ritmos de influência africana.


Flautista, Cândido Portinari  - 1957. Acervo digital ©Projeto Portinari


Samba, Cândido Portinari - 1956. Acervo Banco Central do Brasil, Brasília - DF.

Choro, Cândido Portinari, 1942

As Moças de Arcozelo,  Cândido Portinari. 1940

Baianas,  Cândido Portinari , 1940
Cangaceiro, Cândido Portinari, 1958
Catequese, de Portinari - 1941. Acervo digital ©Projeto Portinari
Biblioteca do Congresso Nacional – DF (Brasília)  - pintura murais

                                        " A Primeira Missa no Brasil",  Cândido Portinari, 1948

O painel de 2,71 m X 5,01m  foi encomendado a Portinari por Thomaz Oscar Pinto da Cunha Saavedra, terceiro barão de Saavedra (1890-1956), para decorar a sede do então Banco Boavista, do qual era Presidente. Foi comprado no final de 2012 pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), vinculado ao Ministério da Cultura.
Sites Consultados
PROA Fundación
http://www.proa.org/exhibiciones/pasadas/portinari/salas/id_portinari_flautista.html
http://obviousmag.org/pintores-brasileiros/candido_portinari/os-temas-sociais-nas-obras-de-candido-portinari.html
http://obviousmag.org/pintores-brasileiros/candido_portinari/o-lavrador-de-cafe-de-candido-portinari.html
http://obviousmag.org/pintores-brasileiros/candido_portinari/os-paineis-de-candido-portinari.html
Linguagens e Códigos
http://cevihumanas.blogspot.com.br/2011/05/candido-portinari-o-artista-que.html
http://www.elfikurten.com.br/2011/02/candido-portinari-mestres-da-pintura.html
http://cultura.culturamix.com/arte/pintores-e-obras-conheca-mais-sobre-portinari-um-dos-maiores-pintores-brasileiros
http://www.folhanoroeste.com.br/noticia/detalhe/12356/masp-reune-os-negros-e-indios-do-pais-desigual-de-candido-portinari.html
http://www.correio24horas.com.br/single-entretenimento/noticia/museu-exibe-o-painel-a-primeira-missa-no-brasil-de-portinari-no-rio-de-janeiro/
http://jaqueline-curador.blogspot.com.br/
Biografia de Portinari
http://museucasadeportinari.org.br/candido-portinari/a-vida
http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=1377
http://pt.slideshare.net/miqueiasvitorino/modernismo-no-brasil-38666392
https://www.todamateria.com.br/industrializacao-no-brasil/

Todas as imagens são do Google

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Mitos e Verdades Sobre a Obra de Paulo Freire

Esta matéria sobre o educador, pedagogo e filósofo brasileiro  Paulo Reglus Neves Freire, ou simplesmente Paulo Freire,   é de autoria de Caroline Monteiro com a colaboração de Laís Semis. Foi publicada pela Revista Nova Escola em 05/05/2017. 

Paulo Freire nasceu em Pernambuco em 1921 e  faleceu em São Paulo em 1997. 
É considerado um dos pensadores mais notáveis da História da Pedagogia Mundial e  foi influenciado pelo movimento chamado Pedagogia Crítica.   Por sua importância nos meios educacionais brasileiros, reproduzo a matéria  na íntegra.  Acompanhe...

O que especialistas têm a dizer sobre o que se fala do educador e filósofo brasileiro


Mesmo após 20 anos de sua morte, Paulo Freire continua aparecendo em discussões sobre educação e em debates políticos, principalmente nas redes sociais. Reunimos as principais polêmicas em torno de seu nome para serem discutidas por quatro educadores. 


Todos têm alguma ligação com o trabalho de Freire – seja atuando na Educação de Jovens e Adultos (EJA), área em que ele teve grande influência, na gestão pública, em que ele trabalhou na prefeitura de Luiza Erundina, ou como representante do legado de seu pensamento. Veja no final do texto a relação de nossos entrevistados.

"Paulo Freire fez doutrinação de esquerda ou marxista"

Nas manifestações contra o governo Dilma em 2015, uma faixa escrita “Chega de Doutrinação Marxista, Basta de Paulo Freire” foi vista nas ruas. Em caixa de comentários do Facebook, os ataques também são comuns. 

Para Felipe Bandoni, colunista de NOVA ESCOLA e professor de Ciências na EJA do Colégio Santa Cruz, as pessoas destilam ódio contra sua obra mesmo sem conhecer. 

“Ele é um pensador de esquerda, tem ligações com a fundação do PT, esteve no governo de Luiza Erundina e seu pensamento é voltado para questões sociais, para os excluídos. A mera associação com esse universo faz com que as pessoas destilem ódio sem se atentar ao que ele propõe.”

Segundo Luiz Araújo, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e secretário de Educação de Belém na gestão de Edmílson Rodrigues (PT), na lógica da direita combativa, aquele que desperta a criticidade está doutrinando. “Paulo Freire não era marxista, mas um humanista radical. 

Existe uma ligação entre as duas correntes. Ambas lutam pela transformação da sociedade, mas não são a mesma coisa. Enquanto o humanista radical não está satisfeito com o capitalismo e acha que precisa mudar as relações, o marxismo propõe superar o capitalismo. Eles combatem o mesmo inimigo e podem encontrar caminhos comuns, mas são coisas diferentes”, diz Luiz.

"Sua obra e método são responsáveis pelas altas taxas de analfabetismo do Brasil"

“Se o método dele é tão bom, por que ainda temos adultos analfabetos no Brasil?”, perguntam algumas vozes. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que as taxas de analfabetismo ainda são realmente altas – embora a situação já tenha sido muito pior. 

Porém, responsabilizar Freire por essa situação é uma ideia que não faz muito sentido. Para Luiz Araújo, a ditadura militar é uma das principais responsáveis pela permanência do analfabetismo. “A contribuição dele foi interditada com a estrutura militar e seu exílio. Ele continuou produzindo e experimentando fora do Brasil, e esses resultados foram tardiamente conhecidos por aqui.” 

Segundo Luiz, a contribuição de Paulo Freire para a diminuição do analfabetismo é comprovada científica e empiricamente. “Seus conhecimentos erradicaram o analfabetismo na Bolívia, na Nicarágua e em outros países do mundo. Se ele tivesse implementado tudo o que queria no Brasil, talvez não tivéssemos esse problema.”

Maria do Pilar Lacerda, ex-secretária de Educação Básica do MEC, concorda que a situação seria melhor se ele tivesse tido mais tempo de atuar no país. “São 517 anos de história, dos quais ele só participou diretamente por 3 ou 5 anos. Criticam Paulo Freire, mas esquecem que tivemos quase 400 anos de escravidão”, diz.

"A metodologia de Paulo Freire revolucionou a alfabetização de jovens e adultos"

Crédito: Divulgação
Prefeitura de Itanhaém
Em termos. A influência foi grande, mas não se universalizou. Boa parte da alfabetização ainda não segue – e nunca seguiu – os passos sugeridos em seu processo. 

Para Luiz Araújo, não tem como negar a contribuição do educador na alfabetização de jovens e adultos, a faixa etária que apresenta mais experimentos e comprovações, mas seu método é geral, e pode ser aplicado também para crianças.

Segundo Felipe Bandoni, Paulo Freire não teria pensado em tudo o que pensou se não estivesse na EJA. “A educação de jovens e adultos faz com que os educadores procurem um sentido muito maior para o que está sendo estudado. 

Como o mercado de trabalho e o vestibular não são o foco, o professor começa a ver que assuntos do currículo tradicional não fazem sentido para a vida daqueles alunos. Na EJA, Paulo Freire enxerga outros caminhos para usar estratégias a partir da realidade dos estudantes, por isso, ele teve mais influência do que em outras modalidades de educação.”

"Paulo Freire é a principal referência na Educação nacional"

Depende. Talvez seja para os educadores, mas nos currículos das faculdades de pedagogia ele nunca teve essa força toda. Para Luiz, antes de chamá-lo de "principal nome", é preciso avaliar de qual ponto de vista se faz a afirmação. 

“Ele é o mais importante do aspecto da inovação pedagógica para romper com a pedagogia tradicional, mas na luta pela escola pública e por olhar a educação como prioridade, posso destacar Florestan Fernandes e Anísio Teixeira, respectivamente”, diz.

Jayse Antonio, professor de Arte na EREM Frei Orlando, em Itambé-PE, explica que Paulo Freire é um dos mais citados em trabalhos acadêmicos, mas também considera a arte-educadora Ana Mae Barbosa, como uma grande referência.

Na opinião de Moacir Gadotti, presidente de Honra do Instituto Paulo Freire, Paulo Freire construiu não só um método de ensino, mas também uma filosofia educacional. “Seu labor intelectual foi muito além de uma metodologia. Ele foi um dos grandes idealizadores do paradigma da Educação Popular.” 

Moacir cita as teses freirianas que contribuíram para com o avanço na teoria e nas práticas da Educação Popular: teorizar a prática para transformá-la; reconhecer a legitimidade do saber popular e harmonização o formal e o não-formal.


"O Paulo Freire é mais valorizado fora do Brasil do que dentro"

O educador, preso pela ditadura após o golpe de 1964, se exilou primeiro no Chile, onde ficou por cinco anos, até 1969. “Lá encontrou um clima social e político favorável ao desenvolvimento de suas teses, desenvolvendo, durante anos, trabalhos em programas de educação de adultos no Instituto Chileno para a Reforma Agrária (Icira)”, o presidente de honra do Instituto Paulo Freire.

Foi no Chile que Paulo Freire escreveu sua principal obra, Pedagogia do Oprimido (1968), traduzida para mais de 27 idiomas. É o terceiro livro mais citado em trabalhos acadêmicos da área de humanas e o único brasileiro a aparecer na lista dos 100 títulos mais pedidos pelas universidades de língua inglesa, consideradas pelo projeto Open Syllabus, segundo Moacir.

Para o professor Luiz, foi justamente a ditadura que contribuiu para que ele fosse mais conhecido no exterior. “Lá fora, onde ficou exilado por 16 anos, Freire produziu e experimentou. Mesmo pensando sobre o Brasil, as ideias se disseminaram primeiro fora daqui. Além disso, o brasileiro tem essa visão provinciana, de valorizar pouco o que é produzido por nós mesmos.”
ENTREVISTADOS

Felipe Bandoni de Oliveira, colunista da revista NOVA ESCOLA e professor de Ciências na EJA do Colégio Santa Cruz, é biólogo, mestre em Fisiologia e doutor em Biologia Evolutiva formado pela Universidade de São Paulo (USP). Vencedor do Prêmio Educador Nota 10 de 2012 e Educador do Ano pelo mesmo prêmio. Felipe é um dos autores da proposta curricular de Biologia seguida pelas escolas estaduais de São Paulo e co-autor de duas coleções de livros didáticos de Ciências para o Ensino Fundamental.

Luiz Araújo, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) é doutor em Políticas Públicas em Educação pela USP e professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília.  Foi secretário de Educação de Belém na gestão de Edmílson Rodrigues (PT) entre 1997 e 2002, presidente do Inep em 2003 e 2004 e assessor de financiamento educacional da União dos Dirigentes Municipais de Educação Nacional (Undime). Além disso, Luiz é presidente nacional do PSOL.

Maria do Pilar Lacerda, ex-secretária de Educação Básica do MEC, é graduada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Gestão de Sistemas Educacionais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Minas). Foi Diretora do Centro de Formação dos Profissionais da Educação da prefeitura de Belo Horizonte na gestão de Patrus Ananias (PT) de 1993 a 1996, secretária municipal de Educação de Belo Horizonte nas gestões de Fernando Pimentel (PT) e Marcio Lacerda (PSB) de 2002 a 2007, presidente da Undime e Secretária Nacional de Educação Básica do Ministério da Educação de 2007 a 2012. Atualmente, Pilar é Diretora da Fundação SM/Brasil.

Jayse Antonio Ferreira, professor de Arte na EREM Frei Orlando, em Itambé (PE), é graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Vencedor do 8º Prêmio Professores do Brasil promovido pelo MEC na categoria Ensino Médio e finalista do Prêmio seLecT de Arte e Educação de 2017.

Moacir Gadotti, presidente de Honra do Instituto Paulo Freire, é professor aposentado da Faculdade de Educação da USP. Formado em Pedagogia e Filosofia, foi assessor técnico da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo na gestão de Mário Covas (PMDB) de 1983 a 1984 e chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo na gestão de Luiza Erundina de 1989 e 1990. É autor de publicações como “Educação e Poder” (1988), “Paulo Freire: Uma bibliografia” (1996) e “Educar para um Outro Mundo Possível” (2007).
Fonte: Revista Nova Escola. Acesso em 10/05/2017. Disponível em: