Morte e Vida Severina
(Auto de Natal Pernambucano)
Este poema-peça-teatral, o texto mais popular de João Cabral de
Melo Neto, é um auto de natal do folclore pernambucano e, também, da tradição
ibérica. Foi escrito entre 1954-55, publicado em 1956 e encenado a partir de 1958, com grande sucesso de público e
de crítica, tendo sido levado ao cinema com igual repercussão.
Seu conteúdo crítico- social chamou a atenção do
compositor brasileiro Chico Buarque de Hollanda, que musicou uma de suas encenações. É um
poema equilibrado, harmônico, seco, duro, direto, sem quaisquer concessões a
soluções simplistas e/ou emocionais. Seguindo a tradição medieval,
tão presente no Nordeste, o poema é escrito predominantemente em versos *redondilhas maiores, com um vocabulário que vai do erudito ao regional sem
prejuízos de interpretação.
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Carnaval em Olinda.
Viva o frevo
pernambucano ! |
Morte e Vida Severina foi composta a pedido da escritora e dramaturga brasileira, Maria Clara Machado, especialmente para o
teatro. Naquela ocasião, Maria Clara que dirigia o teatro Tablado,
no Rio, pediu a João Cabral que escrevesse algo sobre retirantes nordestinos. O
poeta escreveu, então, um grupo de poemas dramáticos, para "serem lidos em
voz alta" e os dedicou a Rubem Braga e a Fernando Sabino, "que
tiveram a ideia deste repertório".
* Redondilha é o nome dado, a partir do século XVI, aos versos de cinco ou sete sílabas — a chamada medida velha. Aos de cinco sílabas dá-se o nome de redondilha menor e aos de sete sílabas, de redondilha maior. A redondilha foi muito utilizada pelos poetas Garcia de Resende e por Luis de Camões. Fonte: Wikipédia.
Análise da obra: entenda
o longo poema
O poema começa com o retirante Severino
se apresentando ao leitor, dizendo quem é e a que vai. Ele
tenta se definir como filho de “Maria” e de “Zacarias”, já falecido. No
entanto, a existência de tantas outras pessoas, na mesma condição dele, com o
mesmo nome, dificulta a individualização do Severino. No texto a
personagem “severino” representa um grupo social, e se
constitui em símbolo do homem pobre do agreste pernambucano em
busca de melhores condições de vida na cidade grande.
No título identificamos a mudança da ordem natural da existência
humana: primeiro a morte e depois a vida. O autor, portanto, antecipa o
tipo de vida que pretende descrever: uma vida que coexiste diuturnamente com a
morte. As duas mantêm tal simbiose que o adjetivo comum confere-lhes, a ambas,
a qualidade de “severinas”, isto é, dura, severa, difícil, de extremado rigor
em suas relações com o meio.
O subtítulo Auto de Natal Pernambucano tem inspiração nos autos pastoris medievais ibéricos,
além de espelhar-se na cultura popular nordestina. O autor nos remete à
tradição medieval ibérica em que a designação "auto" destinava-se a
peças de teatro tradicionais. Neste tipo de representação teatral, os
assuntos poderiam ser religiosos ou profanos, sérios ou cômicos. Eram
comuns na literatura portuguesa e tiveram seu apogeu com o teatro vicentino, no
alvorecer do século XVI. Pela tradição, os autos divertiam,
moralizavam os costumes, e simplificavam as verdades da fé
católica.
O Auto de Natal Morte e Vida Severina possui estrutura dramática. É uma peça de teatro. Severino, personagem, se transforma em adjetivo, referindo-se à vida severina, à condição severina, dura, severa, à miséria. O título da obra: Morte e Vida Severina - Auto de Natal Pernambucano, engloba a mensagem que o texto do poema pretende transmitir para o leitor: retratar o cotidiano pobre e sofrido do sertanejo nordestino, e João Cabral de Melo Neto o faz com muita maestria.
O que quer dizer a
palavra Auto no poema: significa
uma representação teatral, geralmente de alguma passagem bíblica.
Portanto, quando se diz Auto de Natal, refere-se à encenação do nascimento de
Cristo. No caso de Auto da Compadecida, por exemplo, trata-se de
representação envolvendo Nossa Senhora, que se compadece (solidariza)dos
sofrimentos dos humanos. Daí o nome "Compadecida". É por este
motivo que, no poema, João Cabral usa preferencialmente o verso *heptassilábico,
a chamada "medida velha", ou redondilho maior, verso sonoroso e
facilmente obtido.
Sua
linha narrativa segue dois movimentos que aparecem no título: "morte"
e "vida". No primeiro, temos o trajeto do personagem-protagonista,
para Recife, tentando escapar da
opressão econômico-social. No segundo movimento, o da "vida", o autor
não coloca a euforia da ressurreição, como ocorre nos autos tradicionais, ao
contrário, o otimismo que aí ocorre é de confiança no homem, em sua capacidade
de enfrentar os desafios e resolver os problemas. Neste sentido, o poema é marcado
pelo jogo de palavras entre o substantivo próprio Severino e o adjetivo
qualificativo severina (o), caracterizando a vida e a morte presentes no sertão
nordestino, secularmente castigado pelo flagelo da seca, e por outro
aspecto social típico do Nordeste, a questão agrária, com seus
extensos latifúndios.
A peça-poema estruturalmente está dividida em 18 passos, e cada um narra episódios
da longa jornada de um retirante, de nome Severino de Maria — que
foge da seca, em busca de melhores dias na cidade do
Recife, no litoral pernambucano, cortada pelas águas do mar e dos Rios Capibaribe e Beberibe, e suas famosas pontes. O retirante sai do sertão da Paraíba rumo ao
litoral, seguindo a trilha do Rio. Quando atinge o Recife, depois de encontrar
muitas "mortes" pelo caminho, desencanta-se com o sonho da cidade grande e do
mar. Resolve então "saltar fora da ponte e da vida", atirando-se
no Capibaribe. Enquanto se prepara para morrer e conversa
com seu José, uma mulher anuncia que o filho deste "saltou para dentro da
vida" (nasceu). Severino assiste ao auto de natal (encenação
comemorativa do nascimento). Seu José, mestre carpina, tenta demover Severino
da resolução de "saltar fora da ponte e da vida".
Cada um dos 18
passos do poema forma as cenas de um auto natalino, com a descrição
final do nascimento de uma criança, mas entremeados pela morte, que se
constitui no liame entre uma cena e outra. Entretanto, outra divisão
pode ser feita quanto à temática, a saber:
a)
da parte 1 a 9, compreende-se a viagem de Severino até o Recife, seguindo
sempre o Rio Capibaribe, ou o "fio da vida", que ele se dispõe a
seguir, mesmo quando o rio lhe falta e dele só encontre a leve marca no chão
crestado pelo sol;
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Solo castigado pelo Sol e
ausência de chuva. |
b) da parte 10 a 18
- o retirante já está no Recife ou em seus arredores, e
sofridamente sabe que para ele não há nenhuma saída, a não ser aquela que
presenciou no percurso: a morte. Severino assiste ao auto de natal
(encenação comemorativa do nascimento).
Neste
post o poema
não está completo. Trazemos um pequeno trecho, o suficiente para entendermos a ideia central da obra: retratar o cotidiano pobre e sofrido
do sertanejo nordestino, e João Cabral de Melo Neto, o faz com muita
maestria. No link abaixo, você pode acessar o poema na sua íntegra: http://www.releituras.com/joaocabral_morte.asp
*Verso heptassilábico- Verso de sete sílabas métricas, também chamado
de redondilha maior e que se adapta aos versos para serem cantados.
Morte e Vida Severina (Auto de Natal Pernambucano)
O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI